20061009

E toca o sino do primeiro round!

The Contender (Lula x Alckmin) - Poderia escrever aqui uma "BRAVATA" de texto sobre o debate entre os candidatos a presidência da república - o primeiro nesse segundo turno - realizado pela Rede Bandeirantes de Televisão, no entanto, ao receber do colega jornalista Antônio Brasil um primoroso texto referente ao debate em questão, resolvi então publicá-lo aqui na íntegra: "TV é antes de tudo uma combinação de muita emoção e alguns detalhes visuais. Frente à telinha, principalmente nas noites de domingo, o telespectador está acostumado a não pensar. Fica dopado, em um certo estado de letargia cerebral induzido por muitos anos de bobagens na TV. O bom senso e a razão costumam ficar adormecidos em segundo plano. Mas no debate da Band neste último domingo (08/10), o candidato Geraldo Alckmin (PSDB-SP) resolveu ignorar a tradição do dia e do horário e resolveu fazer televisão. Estava irreconhecível. Fez o dever de casa, ensaiou caras, bocas e movimentos gestuais, decorou muitos dados e como não tinha nada a perder, não desperdiçou tempo com carícias preliminares e partiu para o ataque. Mentiroso e fracoPela primeira vez na história deste país, em rede nacional de TV, assistimos a um presidente da república ser chamado de mentiroso, fraco e leviano. Além de enfrentar o mito presidencial, exigiu aos brados, mesmo com o microfone desligado, respeito, respeito, respeito. Televisão é antes de tudo drama. A tendência do telespectador é torcer sempre pelo personagem ou candidato mais fraco. Não é à toa que o presidente Lula não compareceu a nenhum debate no primeiro turno. O plano original não incluía um segundo turno. Para as câmeras, Lula demonstrou despreparo, nervosismo e desconforto na posição de debatedor. Não está mais acostumado. Hoje, prefere os longos discursos nos palanques de campanha e as opiniões dos companheiros bajuladores. Não gosta de perguntas de jornalistas e criticas dos adversários. Em quase quatro anos, concedeu somente duas entrevistas coletivas a imprensa. A última, há poucos dias, foi meio forçada pelo resultado adverso no primeiro turno. Lula estava visivelmente desconfortável de ter que se defender no debate. Agora, imaginem o mesmo debate com a candidata Heloisa Helena. Teria sido um massacre! Mesas redondasMas como em todos os debates pela TV, não houve nocaute. O sistema é muito engessado por regras absurdas e extremamente limitadoras que não permitem um debate de verdade. Segundo pesquisa publicada pela Folha de S. Paulo nesta segunda (09/10), 67% dos entrevistados declararam a vitória de Alckmin. Na minha opinião, debate na TV deveria ter mais cara de mesa redonda de futebol ao invés de imitarmos os debates presidenciais americanos. Somos povos diversos com temperaturas próprias. Mas é só uma sugestão! O que ficou evidente, no entanto, é que neste embate, o presidente Lula foi mantido nas cordas durante quase todos os blocos pelo candidato Geraldo Alckmin. Repito. Ele não tinha nada a perder. As tentativas de Lula de revidar os ataques eram dispersas e inconsistentes com o meio televisivo. Antes de tudo, um conselho. Não se lê perguntas durante um debate na TV. Pega mal. Para o telespectador, revela despreparo, descaso e o pior, demonstra visualmente uma falta de sinceridade. Quem lê em TV é porque não sabe! Há muitos anos, o telespectador está acostumado com repórteres e apresentadores de telejornais que se utilizam de teleprompter – aquela maquininha que engana o telespectador para “parecer” que os jornalistas sabem tudo. Por outro lado, os atores de novelas brasileiras não utilizam sequer pontos eletrônicos. Eles decoram seus textos para que seus personagens pareçam mais convincentes. Ler na frente das câmeras de TV é um pecado mortal. O candidato Alckmin, bem instruído pela sua assessoria, não perdeu a oportunidade de repreender Lula por ler suas longas e confusas perguntas. Após tantas denúncias e demissões, a equipe de comunicação de Lula está visivelmente desfalcada e despreparada para fazer televisão ao vivo. Detalhes reveladoresAqui entre nós, apesar das falcatruas da edição do debate com Collor na Globo, a verdade é que Lula nunca foi muito bom de debate. Seu temperamento agressivo e o nervosismo lhe fogem sempre ao controle. Frente às câmeras, ao ter que ouvir as perguntas do adversário, principalmente nas imagens de quadro dividido, Lula demonstrava impaciência e irritação com os ataques do adversário. Ele não está mais acostumado. As câmeras da Band também o surpreenderam tomando diversos copos de água que também pode revelar nervosismo e desconforto. O telespectador de um debate na TV não percebe, mas é refém dos pequenos detalhes visuais. Ainda mais em um debate com tão poucos argumentos sólidos, raros itens de programas de governo e plenos de trocas de insultos e acusações. Respeito e advertênciasAlém disso, em muitos momentos, Lula se perdeu no tratamento ao opositor. Em mais uma prova de despreparo, começou chamando o candidato Geraldo Alckmin de "Excelência". Depois quis demonstrar autoridade ao citá-lo como ex-governador e acabou se referindo ao candidato como você e Alckmin. Para diluir os ataques, em um tom mais autoritário e professoral, Lula insistia em ironias e advertências ao candidato da oposição. “Vá com menos sede ao pote”. Ou “Esse tom não fica bem em você, Alckmin!” O candidato Geraldo Alckmin aproveitou a deixa para exigir respeito e repetir por inúmeras vezes que o presidente não respondia às perguntas. Insistia que Lula sabia mais sobre o governo FHC do que sobre a sua própria administração. O papel dos jornalistas durante um debate de quase duas horas e meia divididos em 5 blocos foi mais do que discreto. Foi um papel secundário de coadjuvantes, quase imperceptível. Aqui entre nós, para que serve um jornalista mediador em debate tão importante entre candidatos a presidência da república? Ricardo Boechat, de vez em quando, relembrava aos candidatos as regras engessadas do jogo televisivo. E só. Creio que é muito pouco para um jornalista tão bom. Bum Bum Pom PomA Band tentou aproveitar a oportunidade do debate da melhor forma possível. Mas não consegue deixar de ser a velha Band que sempre desperdiça grandes oportunidades. O excesso de comerciais de empresas menores e desimportantes durante os breaks revelavam a surpresa e o despreparo da rede paulista para usufruir desse verdadeiro momento histórico da nossa TV. A Band, pelo jeito, também não esperava um segundo turno. Mais uma vez, os anunciantes pequenos durante o debate revelavam ambições pequenas da rede Bandeirantes. Mas aqui entre nós, de todos os momentos hilários do debate, nada superou a sabedoria ou a advertência de alguns comerciais para bebês: “Compare e escolha o melhor. Fraldas Bum Bum Pom Pom”. Por enquanto, já tenho o meu voto! Fraldas Bum Bum Pom Pom para presidente. Agora é aguardar os próximos rounds. Quero dizer, os próximos debates!" - Antonio Brasil - É jornalista, professor de jornalismo da UERJ e professor visitante da Rutgers, The State University of New Jersey. Fez mestrado em Antropologia pela London School of Economics, doutorado em Ciência da Informação pela UFRJ e pós-doutorado em Novas Tecnologias na Rutgers University. Trabalhou no escritório da TV Globo em Londres e foi correspondente na América Latina para as agências internacionais de notícias para TV, UPITN e WTN. Autor de diversos livros, a destacar "Telejornalismo, Internet e Guerrilha Tecnológica" e "O Poder das Imagens". É torcedor do Flamengo e não tem vergonha de dizer que adora televisão. By Ton.

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