20070308

Ignorância e Comunicação

A subversiva introdução de progressos tecnológicos dinamiza o pensamento de hoje. Em Munique, numa próxima feira eletrônica, estará exposto um conjunto de produtos que sequer existe na imaginação da humanidade, nos dias de hoje, quanto menos em laboratórios.
O que será do jornalismo? Para nós, mais velhos, que perfuramos fitas de telex, teclamos nas antigas máquinas Remington, pedíamos (esperando durante horas) ligações nacionais e internacionais, através de telefonistas auxiliares, às vezes sentimos que ingressamos no universo da ficção.
O que será um editor, em sua escrivaninha, recebendo eletronicamente imagens, sons e textos, remetidos de dezenas de celulares, ao mesmo tempo, de todos os cantos do mundo? Antevemos um jornalista que será um seletor de informação. Mas como transformá-la em conhecimento? Em produto? E como será o processo, o ritual dessas operações? Como se construirá este profissional?
Venho sendo professor de Comunicação na FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado), desde 1976. Muitos de meus alunos são avôs e avós. Vários deles tornaram-se ases da profissão, em missões e cargos destacados. Agora, assisto sua permanente discussão sobre o amanhã.
Não obstante esta evolução, confio na opção de investir no desenvolvimento – pensamento e sentimento – do comunicador, enquanto me rendo à impossibilidade da permanente atualização tecnológica no universo da escolaridade. Nos dias que se seguem, um aluno de engenharia (eu fui), antes do quinto ano do curso, aprendeu obsolescências e necessitaria reciclar-se antes mesmo de receber o diploma, quanto mais cinco anos depois de bacharelado.
A verdade adquiriu uma historicidade em mutação veloz. É verdade que ainda não atravessamos fisicamente uma parede de alvenaria, mas já duvidamos se um dia cruzaremos muros de aço, reconstituindo nosso corpo além do obstáculo. Também não é inferior ousar, além do que criou o escritor Julio Verne, supondo que lembraremos do futuro (“O tempo é curvo”, demonstrou o físico Albert. Einstein). O cosmos, de acordo com o que se compreende, é regido pela gravidade, física quântica e teoria das incertezas.
O eterno diálogo acadêmico de jornalismo transmissor da verdade desaba na medida em que a verdade tornou-se apenas um endereço. A poética controvérsia ao redor de ética na comunicação se redireciona para o conceito de que ética é o bom para a vida (moral é o bem). Para o outro e para o eu.
Neste cenário, as escolas dionisíacas e as apolíneas mantêm suas dinastias: para a primeira, há muitas eternidades; para a segunda, uma só. Para Baco, todos os deuses são Um, enquanto Abrahão sentencia que Deus é eterno e único. Para Dionísio, eu sou múltiplas perspectivas; para Apolo, sou só um.
Parece tonteria, mas ao comunicador de 2007, creio que é a essência a apreender antes de se sentar numa ilha de edição e criar 30 segundos de um comercial de cerveja misógino. Parece papo-cabeça, mas antecede um jingle de loja varejista, que maneja o inculto sonho de aquisição de uma cama a pagar nos próximos vinte meses e seis de carência.
Quantos jornalistas se debruçaram sobre o poder da força (das armas) em retirada diante do poder da sedução? Quantos se dão conta de que o primeiro tem nome e endereço, apóia-se na opressão e é substituível, enquanto o segundo é uma estratégia anônima e apócrifa, que se funda na impressão induzida de prazer e de satisfação do cliente?
Sim. A subversão tecnológica assusta, preocupa, demanda acompanhamento. Porém, a ignorância, a superficialidade e a falta do que dizer são terremotos que chegam antes.
Onde se revela o desastre? No próprio emprego da língua. A má articulação, a ausência de coesão, a inqualificável pontuação, juntas traduzem uma arquitetura inviável para a comunicação. Primeiro, porque as palavras são inocentes, infinitas e inalcançáveis. Segundo porque o espírito que elas querem traduzir também o é. Terceiro porque a ambição de entender é inócua e corresponde a descobrir as razões de Deus.
Texto by Paulo Ludmer - Jornalista, professor de Comunicação da FAAP. By Ton.

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