20080115

Musharraf acusa terrorista do Waziristão do Sul

O presidente do Paquistão, Pervez Musharraf, concede uma entrevista exclusiva para a revista "Der Spiegel", ao qual discute as teorias de conspiração sobre a morte de Benazir Bhutto, os temores ocidentais de que o arsenal nuclear de seu país caia nas mãos dos terroristas e a possibilidade de renunciar.

Spiegel - Sr. presidente, o Paquistão é um terreno fértil para o terrorismo e a Al Qaeda deseja derrubar seu governo para se apossar das armas nucleares do país. O Paquistão é o país mais perigoso do mundo?

Musharraf - Isso é um enorme exagero. Mas eu não nego que a Al Qaeda esteja operando aqui. Ela está realizando terrorismo nas áreas tribais, é a responsável por trás desses atentados suicidas. Apesar de tudo isso ser verdade, uma coisa é certa: os fanáticos nunca tomarão o Paquistão. Isso não é possível. Eles não são tão fortes militarmente para poderem derrotar nosso exército, com seus 500 mil soldados, nem politicamente -eles não têm chance de vencer eleições. Eles são fracos demais para isso.

Spiegel - O "New York Times" noticiou que o vice-presidente Dick Cheney e a secretária de Estado, Condoleezza Rice, estão planejando operações secretas com agentes da CIA na área tribal. O senhor foi informado a respeito?

Musharraf - Eu nunca permitiria forças americanas operando em solo paquistanês. Se precisarmos de apoio, nós pediremos. Somos nós que atuaremos, ninguém mais. Pouco antes de nossa entrevista, eu me encontrei com uma delegação de funcionários da inteligência americana. Nós compartilhamos plenamente nossas informações e há coordenação total. Eles me transmitiram que o presidente Bush me considera um amigo bastante sincero.

Spiegel - O próximo presidente dos Estados Unidos poderá ser um democrata. Os candidatos à frente nas pesquisas declararam que mudariam a política em relação ao Paquistão. Hillary Clinton deseja impor controles americanos sobre o arsenal nuclear paquistanês e Barack Obama gostaria de enviar soldados americanos para combater os extremistas em seu país...

Musharraf - ... (ri, balança a cabeça)

Spiegel - ...eles também poderiam cortar a ajuda militar e econômica ao Paquistão, que foi de mais de US$ 10 bilhões desde 2001. Os candidatos democratas já entraram em contato com o senhor?

Musharraf - Todos esses políticos que você mencionou e que falam dessa forma não têm acesso à informação de inteligência que lhes proporcionaria uma visão exata da situação. Quando essas pessoas tiverem acesso a tal inteligência, eu estou certo que não adotarão uma abordagem diferente daquela de seu antecessor. Por que iriam querer fazer algo para nos desestabilizar, uma potência nuclear? Eles não agirão contra seu próprio interesse nacional.

Spiegel - O maior pesadelo dos americanos e do Ocidente é de que o arsenal nuclear do Paquistão possa cair nas mãos dos fanáticos religiosos. Recentemente, o chefe da Agência Internacional de Energia Atômica, Mohamed ElBaradei, expressou sua preocupação com a segurança das armas nucleares paquistanesas. O medo de que os extremistas algum dia possam se infiltrar no sistema de segurança em torno das instalações nucleares é realmente exagerado?

Musharraf - A impressão do sr. ElBaradei é totalmente equivocada. Antes de sermos oficialmente declarados uma potência nuclear em 1998, nosso programa nuclear foi mantido em segredo. Naquela época, o principal cientista, A.Q. Khan tinha contato direto com o presidente e podia agir de forma independente...

Spiegel - ...um privilégio que ele usou para fechar acordos ilegais com a Coréia do Norte, Irã e Líbia.

Musharraf - Quando me tornei o chefe em 1999, eu suspeitei que A.Q. Khan estava fazendo coisas proibidas e o demiti. Então eu decidi introduzir um controle de segurança, o Comando da Força Estratégica do Exército, que é organizado como uma corporação militar para manter os ativos seguros. Tudo é considerado. Os terroristas não conseguiriam nem retirar um parafuso de um rifle.

Spiegel - O senhor excluiu a possibilidade de indivíduos dentro do Exército ou da agência de inteligência ISI, que simpatizam com os fanáticos religiosos, poderem se infiltrar no sistema?

Musharraf - A ISI não cuida de nenhum assunto nuclear. Ela não tem nada a ver com isto.

Spiegel - Benazir Bhutto era um símbolo de esperança de um Paquistão moderado, democrático. Ela alegava lutar por eleições livres e justas -e foi assassinada. Muitos paquistaneses duvidam que as eleições de 18 de fevereiro serão livres e justas e acreditam que o senhor está planejando manipular a votação.

Musharraf - Será que terei que provar que as eleições não são manipuladas? Como poderia? Eu tive que adiar as eleições em seis semanas por motivos de segurança. Tudo será correto. Eu convidei observadores internacionais.

Spiegel - Quem matou Benazir Bhutto -e como? Novas teorias de conspiração surgem todo dia e a maioria no Paquistão parece achar que tudo é possível.

Musharraf - Nós obtemos novas evidências todo dia. Hoje, eu estou razoavelmente certo sobre quem a matou, porque grampeamos os telefones dos militantes extremistas. Nós ouvimos a voz de Bethulla Mehsud, um terrorista do Waziristão do Sul, que expressou sua satisfação com a morte de Bhutto.

Spiegel - Após o ataque terrorista contra ela no dia de seu retorno do exílio, em Karachi em outubro, a sra. Bhutto acusou certas pessoas no aparato de segurança paquistanês.

Musharraf - Uma alegação muito estranha e improvável. Ela estava acusando a mesma organização que a alertou sobre os homens-bomba, que lhe forneceu inteligência e lhe ofereceu segurança. Ela foi alertada, mas tomou uma decisão diferente. Três semanas antes de sua morte, eu não permiti que realizasse um comício na praça mais congestionada em Rawalpindi. Ela fez acusações, tentou manchar a reputação de pessoas sem provas. Mas por que teria que provar minha inocência?

Spiegel - Há versões contraditórias sobre como ela morreu.

Musharraf - O porta-voz do Ministério do Interior infelizmente assumiu a versão de que ela morreu por ter batido a cabeça na alça do teto solar -e convocou uma coletiva de imprensa por conta própria para fazer o anúncio. O fato é que o homem que atirou, atirou do lado esquerdo. Todavia, no corpo de Benazir há um ferimento no lado direito do crânio. Eu vi uma ampliação do raio X, que mostrava uma fratura naquele lado do crânio. (É difícil encaixar tudo isto e) mostra que nunca se deve dar uma declaração final até que a investigação esteja concluída.

Spiegel - Qual é a versão mais provável em sua opinião?

Musharraf - Testemunhas no carro disseram que ela escorregou antes da explosão. Ela estava acenando e se virou um pouco para a direita e tal ângulo pode ter sido o suficiente para que a bala atingisse.

Spiegel - Por que o aparato de segurança do senhor foi incapaz de impedir o assassinato?

Musharraf - O início do comício foi bem organizado. A chegada dela e seu discurso público foram seguros. A condução dela até o carro não foi um problema. Mas o que aconteceu dentro do carro? Todas as demais pessoas no carro ficaram em segurança e não se feriram. Mas ela se esticou para fora do carro. Alguém devia ter dito para ela não fazer aquilo.

Spiegel - O senhor pediu para a Scotland Yard ajudar na investigação, mas não permitiu a investigação internacional da ONU pedida pela família Bhutto. Por quê?

Musharraf - O que a ONU tem a ver com tudo isto? Ocorreu um assassinato e nós o investigaremos. Se nos faltar alguma capacidade técnica ou pericial nós pediremos à Scotland Yard. Mas não se deve subestimar a capacidade de um Estado nuclear com 160 milhões de habitantes e forças armadas e serviço de inteligência muito bem organizados. Nós somos capazes.

Spiegel - Sr. presidente, há cerca de um ano o senhor disse que Benazir Bhutto saqueou e roubou o país e que ela nunca mais teria um papel na política paquistanesa. O que fez o senhor mudar de idéia e permitir o retorno dela?

Musharraf - A declaração que fiz foi baseada em fatos. Minha opinião pessoal não pode afetar os interesses nacionais. Muitas pessoas queriam a volta dela ao país. Se quiserem elegê-la para um cargo político -o que posso dizer a respeito? Eu deveria suspender o processo democrático, do qual o Ocidente gosta tanto? Vocês no Ocidente têm obsessão com democracia, direitos humanos e liberdades civis. Mas não me entenda mal: nós também queremos democracia...

Fonte: Der Spiegel. Entrevista conduzida por Erich Follath e Susanne Koelbl, em Islamabad. Edição by Ton.

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