20100406

Brasil, um país de todas as idades

Ouviram do Ipiranga às margens plácidas de um povo heróico brado retumbante a declaração de independência das terras habitadas só por índios até 1500 e, colonizada a partir daí por portugueses que tiveram a “ajuda” da explorada mão-de-obra africana.

Além do território, o homem branco conquistou também as mulheres negras e as nativas, sob forma de uma missão civilizadora, ocasionando assim a criação de uma nação miscigenada, sem paralelo no mundo. Mas esse mosaico étnico teve continuidade com a chegada de imigrantes em vários períodos da história brasileira. Por isso, mesmo depois do grito da independência, a construção da nacionalidade e a própria consciência do que é ser brasileiro permaneceram e permanecem até hoje prejudicadas por aquilo que Joaquim Nabuco chamou de nossa “única obra verdadeiramente nacional”, ou seja, “a nódoa da escravidão”.

Observa-se, entretanto, que o quinto país mais extenso do globo, o de terras exóticas e gigantes pela própria natureza, és belo é forte de impávido colosso, de riquezas naturais inigualáveis com climas e vegetações variadas. É também o quinto país mais populoso do mundo e possui a oitava colocação na economia mundial.

Ó terra adorada, entre outras mil, tem o privilégio de dezessete, dos seus vinte e seis estados serem banhados pelo mais importante oceano intercontinental, de possuir fronteiras com quase todos os países sul-americanos e de praticamente toda a sua superfície territorial ser de possível habitação, em virtude da ausência de desertos e elevadas cadeias montanhosas.

É evidente que dos filhos deste solo és mãe gentil, Pátria amada. Filhos trabalhadores, esforçados. Todavia este velho país continua ingênuo como uma criança, que ainda prefere acreditar que o seu cavalinho de madeira anda com as próprias pernas. A culpa não é dos ancestrais indígenas é do nativismo antropofágico dos seus colonizadores apoiados em suas bengalas de ambição e poder. Se a cada dia algo fosse executado para o desenvolvimento da nação, começando pela mudança da distribuição de renda que no momento é um dos piores do mundo, ou por uma significativa ajuda a população; com certeza hoje este país seria uma super potência econômica, equivalente às do primeiro mundo. Reformas precisam ser feitas, não importa qual seja a primeira.

Se já temos como slogan, país emergente, para que mudar? Não se pode parar para ver a banda passar, os brasileiros - crianças, jovens, idosos - precisam fazer parte dela.

Ao observar que a população brasileira é predominantemente jovem, que o campo de ação para se desempenhar trabalhos tanto no setor primário, secundário e terciário está defasado, lembrando que o parque industrial do Brasil é o décimo maior do mundo e, que a população economicamente ativa masculina é de 64,6% e a feminina de 35,4%, fica inaceitável que 33% dos residentes no país são classificados como miseráveis, sendo que a declaração universal dos direitos humanos aprovada por unanimidade pela assembléia geral da ONU em dezembro de 1948, não admite essa situação, tendo como exemplo o artigo vinte e três que diz: “Todo homem tem o direito ao trabalho, a livre escolha de emprego, a condições justas e favoráveis de trabalho e a proteção contra o desemprego... ..”

Mas ao olhar ao redor, percebe-se que as crianças não estão na escola como deveriam. Elas estão trabalhando em pequenas indústrias, no comércio e no campo; o chamado exploração infantil. Muitas vezes essas crianças também acabam por cuidar de seus irmãos mais novos e da casa, enquanto seus pais estão ausentes para trabalhar.

Os jovens e adultos, ou estão desempregados, ou são submetidos a uma subordinação precoce e exploradora de trabalho, para que possam obter o pão de cada dia. Essa realidade acaba muitas vezes privando o direito à educação dos mesmos.

Infelizmente a pior humilhação cabe aos idosos brasileiros, que após anos de dedicação ao trabalho acabam por ficar a ver navios, com a renda de suas aposentadorias. Para poderem sobreviver, já com idade avançada, precisam completar o salário do INSS com ‘biscates’. A subsistência do cidadão de idade vital ou terceira idade é preenchida com bicos de trabalhos.

Ao buscar um trabalho após a aposentadoria o idoso encontra sérias dificuldades de recolocação, pois além de não conseguirem empregos são discriminados pela sociedade em geral. Existe famílias que largam seus velhinhos em asilos, os desrespeitando e fazendo-os sentir pessoas inúteis perante a sociedade, que por sua vez também não se movimenta para ajudá-los.

O Brasil é um país de todas as idades, com mentalidade de desprezo pela sua própria história. Os brasileiros em geral associam o passado e a tradição do país a uma idéia de chatice, de modorra. No Brasil tudo parece por fazer; não se sente a menor textura histórica; modismos devoram o que veio antes com a mesma leviandade com que serão devorados pelo que vem depois. Segundo o escritor Northrop Frye “ quanto mais civilizado somos, tanto mais difícil parece a tarefa de manter a civilização”. A história de um povo não é sonho nem pesadelo.

Realmente - em plena passagem para a nova era, o mundo vem atravessando um período de tensão pré-milênio, com todos os desconfortos, irritabilidades, fadigas. Tormentas, mau humor e, acima de tudo, medo. Terrores geralmente infundados. Profecias e noticiários de TV formam um coro que reforça a nova TPM (Tensão Pré-Milênio) e produz uma repetição estafante: fome, miséria, guerras, assaltos, assassinatos hediondos, tráfico de drogas e de influências, corrupção, protecionismo, sonegações e impunidades; o governo brasileiro parece estar deitado eternamente em berço esplêndido, ao som do mar e à luz do céu profundo, pois além de tudo constata-se que somos o sétimo país com maior índice de analfabetos (33% da população brasileira é analfabeta, 70% não tem o Ensino Fundamental completo, 14% não concluíram o Ensino Médio e apenas 1% entram na Universidade, no entanto, 0,5% concluem o curso universitário) sendo que a base para as pessoas ajudarem a construir um país é a escolaridade.

Através da verdadeira forma brasiliana é de extrema urgência que se dê informações e nuances ao resto do mundo sobre o que é o Brasil. Para muitos ‘gringos’, ele é uma espécie África do Sul amazônica, na qual uma minoria branca urbana oprime uma maioria negra (ou parda) vivendo em estágio medieval no interior e no norte do país. E se trata de um país distante e selvagem, que está acabando com o “pulmão do mundo” e desconhece a modernidade civilizada. Mas o que fazer quando as autoridades em turismo insistem em vender a imagem do país da bola, bunda e batucada?

Tudo, na verdade, tem a ver com uma falta de autoconsciência de todas as idades do Brasil. Em todo o país há choques culturais entre as regiões, por exemplo. O desequilíbrio aqui é insuperável. Gaúchos nem sequer disfarçam seu brio separatista; baianos se dizem habitantes de ‘terra mágica’ e reclamam do apartheid do sul; cariocas reclamam da paulistização da Rede Globo e assim por diante.

Em países do primeiro mundo os direitos humanos são encarados em consensos da organização social e da justiça. No Brasil o que falta é auto-respeito às leis e autocrítica ou, em uma só palavra, autoconhecimento dos direitos e deveres de cidadania.

Talvez seja por isso que a nossa alegria exclusiva é tímida e, só apareça para o restante do mundo através do futebol e do carnaval, ou porque colocaram-nos como nação pobre e submissa?

Concomitantemente, vemos nos dias de hoje que a civilização mata de fome e desprezo muitos de seus filhos, na medida em que falta-lhes educação, saúde e comida, mas sobram injustiças, violações de direitos, desrespeito a vida e desigualdades sociais. Hoje a dita “civilização” prospera quando a impunidade social transforma o anormal em normal.

Em meio ao mundo globalizado, não há aldeia que cale a força de nosso país, que é a língua; um patrimônio adquirido por crianças, jovens e velhos.

Brasil terra de todos os povos que o gênio Machado definiu como “o país de sentimento íntimo”. Assim é o país de todas as idades, uma nação intimamente calorosa, generosa, donativa.

Se a Mátria chamada Brasil pudesse falar, diria em tom poético e musical à todos os filhos brasileiros:

Ao nascer eu vi você chorar,

Eu pude até sentir seu coração pulsar,

Ninguém me viu ali, mas eu te amei e

só vou pedir que ouça o que direi;

Como criança eu pra sempre vou te amar,

E se o calor faltar em mim vai encontrar

E quando a idade enfim chegar,

não deixe de lembrar

Como criança eu pra sempre vou te amar.

Esse país poético de Caetano, Manuel Bandeira, Adoniran Barbosa, Graciliano Ramos, Drumond, Gil, Euclides da Cunha, Chico, José da Silva, Maria, João, Manuel, entre tantos outros brasileiros; no entanto, foi o último país do mundo a abolir a escravatura e o último país das Américas a adotar o regime republicano.

No país de todas as idades não há uma distribuição adequada de conhecimento, tecnologia e consumo e, a mobilidade social se estratifica ora sutil, ora grotesca – e esta ambivalência vem desde o Império e principalmente do governo paternalista de Dom Pedro II que regia as instituições nacionais, misturando as esferas privada e pública. Um exemplo a mais dessa “mobilidade social” são as principais leis brasileiras, que foram elaboradas há quase um século. Outro exemplo: na Constituição de 1988 está escrito que a taxa de juros não pode exceder 12% ao ano – e nas faturas de cartões de crédito os valores apresentados são 12% ao mês. A unidade da população brasileira foi posta na mesma feijoada do atraso econômico, da confusão fiscal e da discriminação social.

Perante a sociedade internacional o Brasil é como um prédio grande, remoto e descascado que, em meio a arranha-céus reluzentes, só é notado por contraste. Para que não sejamos um país de todas as “maldades”, precisa-se que todas as idades atentem-se para o fato de que estamos entrando em novo século e milênio, ou teremos três países; um no século XIX, outro no XX e outro no XXI.

O mundo está se dirigindo para o assédio tecnológico e, as pessoas de todas as idades do Brasil, como estão situadas neste cenário do e-comércio, e-comunicação, e-talk, e-terapia, e-saúde, e-religião, e-competição, e-sexo, e-mail.? A atual geração brasiliana precisa estar plugada no e-tudo, uma vez que a sociedade caminha para o rumo dos computadores. Hoje, bancos, supermercados, farmácias oferecem seus serviços através de máquinas. Se o aposentado, a criança e o jovem não se adaptarem a essa tecnologia o que será deles? Acabarão por terem que viver às margens da sociedade.

Oh! Brasil terra de tantos contrastes, não se esqueça da tua realidade – a sociedade brasileira. Homens e mulheres de todas as cores, de todas as graças, de todas as raças, de todas as praças e de todas as idades. De norte ao sul somos todos brasileiros inseridos ou não no processo do progresso positivista neoliberal.

Mas verás que um filho teu não foge à luta, nem teme. O povo brasileiro continua sendo o grande herói nacional. Aproveitar essa coragem no atual tempo e espaço seria bom, porque até agora não houve ‘ordem’ nem ‘progresso’ neste país de todas as idades. Texto redigido em 1999 específicamente ao Prêmio Direitos Humanos1999, em comemoração ao Ano Internacional do Idoso. By Clayton Fernandes.

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