20130618

Brasil 2013: Onde a palavra de "Ordem" é "Desordem"...


É a maior mobilização popular do Brasil desde as Diretas Já de 1985, contra a Ditadura Militar e os protestos pedindo o impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello, em 1992.

"O povo acordou!"
"Vem pra rua, vem, contra o aumento"
"Saia do sofá e venha protestar"
"Sem vandalismo"
"Olha que legal, o Brasil parou e nem é Carnaval"
"Que coincidência, não tem polícia, não tem violência"
"Brasil, 'vamo' acordar, o professor vale mais que o Neymar"
 (Trecho de alguns dos gritos entoados nos protestos que tomaram as ruas de São Paulo, no dia 17 de junho de 2013)

A insatisfação que levou milhares de estudantes às ruas em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e várias grandes cidades nos últimos dias, em manifestações que resultaram em inúmeros atos de violência, depredação e confrontos com a polícia, vai além do descontentamento com a elevação na tarifa do transporte público. E no momento em que o Brasil está sob os holofotes às vésperas de receber grandes eventos internacionais, o movimento que se iniciou nas redes sociais ganha corpo e se espalha por outras capitais do país e do mundo.

Brasília: - cerca de 10 mil manifestantes; Ocupação de marquise do Congresso Nacional;

São Paulo:  - aproximadamente 65 mil caminharam pela marginal Pinheiros e principais avenidas da zona sul, centenas de estudantes se posicionaram em frente do Palácio dos Bandeirantes;

Rio de Janeiro: - 100 mil pessoas protestaram na avenida Rio Branco, centro do Rio e uma minoria baderneira depredou a ALERJ - Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro;

Belém: - mais de 13 mil participaram de atos de apoio aos manifestantes do sudeste.

Veja as estimativas de participantes das manifestações nas demais cidades do país:



Desde a semana passada manifestantes, em sua maioria jovens e estudantes, têm protestado contra o aumento de 20 centavos nas tarifas do transporte público em São Paulo --foi de R$ 3 para R$ 3,20. 

Autoridades descartam rever o preço e argumentam que o reajuste, inicialmente previsto para janeiro, foi postergado para junho e veio abaixo da inflação.

Para a professora Angela Randolpho Paiva, do Departamento Ciências Sociais da PUC-RJ, o movimento emana de uma insatisfação difusa de estudantes. "É um grupo de estudantes, inclusive estudantes de classe média que estão na rua num momento de uma catarse mesmo. Quer dizer, os 20 centavos foram estopim para muita insatisfação com o que está acontecendo, e tomara que usem essa energia para outros protestos."

"Eu diria que tem uma insatisfação quando você vê que esses eventos [Copa das Confederações e Copa do Mundo] têm prioridade número um na gestão pública. Todo dinheiro é gasto nisso", disse. "Uma coisa é certa, o poder das redes sociais. Isso não pode ser desprezado em hipótese nenhuma. Essa questão da passagem é muito inesperado ter tomado essa proporção", disse.

Faixas contra o uso de dinheiro público nas obras da Copa, protestos contra a PEC 37 (proposta de mudança de legislação que tira o poder de investigação do Ministério Público), contra corrupção e violência, por educação melhor e redução do custo de vida e pedindo melhores serviços públicos em geral. "O povo unido jamais será vencido", entoava um coro de milhares de manifestantes na avenida Faria Lima em São Paulo.

DESTAQUES DA IMPRENSA INTERNACIONAL

A imprensa internacional deu bastante destaque aos protestos que reuniram milhares de pessoas em várias capitais brasileiras na última segunda-feira (17). 

O jornal francês "Le Monde" chegou a reservar sua manchete para as manifestações. Sem dar um motivo único às manifestações, os meios estrangeiros citaram insatisfações com os gastos da Copa do Mundo e lembraram que tudo começou com o aumento do preço da passagem de ônibus em São Paulo.  Além disso, a imprensa internacional, citando ou não manifestantes, comparou o caso brasileiro com o que vem acontecendo na Turquia, onde os protestos começaram contra uma medida do governo de remodelar uma praça em Istambul e se tornaram grandes atos contra o premiê Recep Tayyip Erdogan.

Guardian

Para o jornal britânico "The Guardian", em sua edição online, o Brasil teve uma das maiores noites de protestos "em décadas", quando mais de 100 mil pessoas tomaram as ruas do país para "expressar frustração contra os abusos da polícia, os péssimos serviços públicos e os altos custos da Copa do Mundo."
O "Guardian" lembrou que os protestos coincidem com o começo da Copa das Confederações e chegou a falar com um manifestante de 19 anos, morador da favela da Rocinha, no Rio.
"Estamos aqui porque odiamos o governo. Eles não fazem nada pela gente", disse ao jornal Oscar José Santos.
O jornal inglês também afirmou que as demonstrações de rua estavam sendo comparadas com as manifestações da Turquia e lembrou que, em São Paulo, pessoas foram presas por posse de vinagre, o que o "Guardian" chamou de "Revolução do Vinagre".

New York Times

O "The New York Times" afirmou que as maiores cidades do Brasil viram na noite de segunda-feira (17) "uma exibição notável de força para uma agitação que começou com pequenos protestos contra o aumento das tarifas de ônibus".
Para o jornal americano, a manifestação inicial "evoluiu para um movimento mais amplo com a participação de grupos de indivíduos revoltados com uma série de questões, incluindo o alto custo de vida no país e os luxuosos novos projetos de estádios".
O "New York Times" também comparou os protestos com o que vem ocorrendo na Turquia e disse que no Brasil as manifestações "se intensificaram depois que uma dura repressão policial na semana passada surpreendeu muitos cidadãos".

"A violência veio do governo. Esses atos violentos por parte da polícia provocam medo e, ao mesmo tempo, a necessidade de continuar protestando", disse Mariana Toledo, 27, estudante de graduação na Universidade de São Paulo, ouvida pelo jornal.

Le Monde

Os protestos pelo Brasil viraram a manchete do jornal "Le Monde", publicado na tarde desta terça (18) na França. Em sua capa, o jornal traz "Agitação social se espalha. O 'Milagre Brasileiro' está em pane."
No principal texto do jornal, o "Le Monde" lembra que as manifestações são as maiores "desde o fim da ditadura, em 1985, e dos protestos contra a corrupção do ex-presidente Fernando Collor, em 1992".
O jornal diz que "há várias reivindicações" entre os manifestantes e destaca a multidão de jovens que tentou invadir o Congresso Nacional, em Brasília.
"Gastar tanto dinheiro para esses eventos esportivos quando temos necessidades para a educação, saúde e habitação, simplesmente não é possível", disse Thiago Ribeiro, 23 anos, estudante de comunicação no Universidade de Brasília, em entrevista ao jornal.
Para o jornal, Dilma é vilã de uma revolta contra "despesas suntuosas da Copa do Mundo de 2014".

El País

O site do jornal espanhol "El País" também traz em sua manchete os protestos brasileiros. Segundo a reportagem principal, os manifestantes "saíram do Facebook e tomaram as ruas do Brasil como não se via desde o fim da ditadura, quando o povo exigia democracia, ou os protestos contra o presidente Fernando Collor".
Segundo o jornal, nas ruas viam-se cartazes de todos os tipos e por todas as causas. "Desde o clássico 'faça amor, não faça guerra' até 'liberdade para Assange' e um em inglês escrito 'não venha ao Mundial'".
Assim como várias outros veículos estrangeiros, o "El País" também lembrou dos protestos turcos e entrevistou um grafiteiro em São Paulo que disse: "os 20 centavos aqui são o parque de Istambul".
Em outro texto, o "El País" afirmou que a tarifa de ônibus, em São Paulo, é a mais cara do mundo e uma das mais ineficientes.
O correspondente Juan Arias, em um terceiro texto, afirmou que o governo está perplexo com os protestos. Para o espanhol, o sonho vivido na noite de segunda pode acabar em "pesadelo pelos gestos de violência de alguns grupos extremistas".

NOTA DA PRESIDENTA DILMA

"Essas vozes, que ultrapassam os mecanismos tradicionais, os partidos políticos e a própria mídia, precisam ser ouvidas", afirmou a presidenta Dilma Rousseff.

"A minha geração sabe quanto isso nos custou. Eu vi ontem um cartaz muito interessante que dizia: 'Desculpe o transtorno, estamos mudando o país'. Quero dizer que meu governo está ouvindo essas vozes por mudanças", disse a presidenta.

A presidente louvou o caráter pacífico das manifestações, inclusive de parte da polícia, mas observou que os "atos isolados de violência contra pessoas e patrimônio" deveriam ser punidos. "Toda violência é destrutiva."A mandatária disse ainda que "a grandeza das manifestações de ontem comprovam a energia da nossa democracia".

Fontes: Folha de São Paulo, Le Monde, The Guardin, The New York Times, El País, Futura Press, Jornal da Globo, Jornal do SBT e Plantão da Band TV. Edição de textos by Clayton Fernandes.

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